A última relíquia que ainda respira notícia...
Quem nunca passou por Presidente Prudente e se espantou com o jeito desconfiado mas hospitaleiro, dos locais? Pois saiba: esse jeito tem nome e endereço. Mora na redação do jornal mais antigo da região, o O Imparcial, que há oito décadas faz o mesmo ofício de formiga: carrega o peso da boa informação nas costas, sem alarde, sem estrelismo, sem atalhos, sem sensacionalismo barato, sem denuncismo lacratorio.
O Oeste Paulista foi terra de fronteira. Aqui, quem chegava primeiro não levava só a terra — levava a palavra. E a palavra, quando não era dita com firmeza, virava boato. Foi para combater o boato que nasceu O Imparcial. Não com pompa, mas com necessidade. Na década de 1940, quando Prudente ainda tinha mais cavalos que carros e o rádio chiava mais do que falava, o jornal impresso era a única certeza entre o diz-que-diz e o aconteceu.
Eis que, oito décadas depois, o mundo virou de ponta-cabeça. As notícias chegam antes dos fatos. Qualquer um com um celular na mão se diz repórter. E, nesse tumulto todo, O Imparcial continua ali — não como um museu ambulante, mas como um farol queimado de tanto uso, mas que ainda ilumina.
Já vi gente perguntar: "Pra quê jornal local hoje?" Respondo com outra pergunta: quem vai contar, com a mesma calma, que cortaram a verba da creche? Quem vai cobrar com credibilidade para fazê-lo, a obra do Aeroporto que nunca começa? Quem vai ouvir a dona Maria, do bairro, quando ela disser que a rua está esburacada há três anos? O algoritmo não vai. A postagem patrocinada não vai. Só o jornal que tem compromisso com o lugar vai.
E O Imparcial é isso: um pacto de 80 anos com a verdade. Sem manchetes sensacionalistas. Sem títulos de dar susto. Com o que há de mais raro no jornalismo brasileiro atual: honestidade, ética e aquela velha e boa prática de checar o fato antes de publicar.
O jornalista de lá — muitos deles prudentes de berço — não escreve para ganhar clique. Escreve para o vizinho, para o fazendeiro, para a professora, para o comerciante. Escreve para o leitor que ainda guarda edições encadernadas no fundo do armário e, ao reabri-las, reencontra a própria história.
Presidente Prudente mudou. O Oeste Paulista não é mais a fronteira de antes. Mas o O Imparcial continua sendo o mesmo prego firme — o que segura a memória no lugar, enquanto o vendaval digital tenta levar tudo.
Dizem que o jornal morreu. Bobagem. Enquanto houver um único cidadão no Oeste Paulista que prefira a informação apurada ao vídeo de 15 segundos, O Imparcial terá razão de existir. E mais: terá o dever de continuar.
Porque, no fim das contas, a força de um jornal não está no papel. Está na confiança. E essa, meus caros, O Imparcial construiu tijolo por tijolo, edição por edição — durante oito décadas ininterruptas. Que venham mais oito. A verdade, pelo menos essa, o tempo não corrói.
Fonte Sinomar Calmona
Sem corte na integra